quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Capítulo 14: Serpente


Nenhuma criatura que habitava fora do Jardim conseguia entrar. Exceto uma. Aparentemente, ela tinha permissão para entrar e sair quantas vezes quisesse. Homem e Mulher a chamavam “Serpente”.
Todos os dias Serpente entrava no Jardim e passava muito tempo conversando com o Homem. Depois, voltava para o seu lugar, fora do Jardim, onde reinava o caos, e para onde eu jamais gostaria de voltar.
Resultado de imagem para a antiga serpente

Nunca me atrevi a perguntar o teor das conversar entre o homem e a serpente. Estava mais interessado em aprender sobre o Criador. Todos os dias Homem e Mulher sentavam a beira da árvore da vida, comiam de seu fruto revigorante e, ambos conectados a mim, passávamos tardes e noites inteiras conversando sobre as coisas do Celestial. E, assim, aprendi muito sobre Ele e sua criação.

Aprendi sobre a afinadíssima harmonia que existe acima do céu e embaixo da terra. Que todas as criaturas tem uma função a desempenhar e, que essa função, faz com que tudo funcione no mundo em que vivemos. Entendi o papel do homem e da mulher como administradores da criação. Acompanhei com interesse o nascimento e o desenvolvimento de suas crias, entendi a grandiosa missão que o Criador havia dado àquela espécie renovada: levar a harmonia do Jardim para os quatro cantos daquele mundo decaído.
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Vida...

Palavra maravilhosa.

Ela deve ser protegida e perpetuada. Meu papel no mundo é preservá-la dentro do Jardim,  fazer com que sua influência cresça e elimine o mal que existe no mundo.

Enquanto tiverem a árvore da vida e a energia da matriz que a prolonga, não existe uma forma de esta missão não dar certo.

No dia-a-dia naquele lugar magnífico, apenas uma coisa me tirava a paz: Serpente. Não poderia confiar em nada que vivesse fora do Jardim e não gostava das longas conversas que aconteciam entre ela e o Homem, muito embora desconhecesse o teor de tais diálogos.


Não demorou e Serpente mudou o foco de suas conversas, pois havia desistido do Homem para voltar-se à mulher.

sábado, 13 de agosto de 2016

Capítulo 13 Celestial


Talvez, o que somos seja resultado daquilo que já éramos e daquilo que vimos a ser através da experiência.

Em minhas mais remotas lembranças, se é posso assim chamar, vislumbro imagens de outro lugar, de outra época. De mim se aproxima uma criatura muito semelhante ao homem, embora notoriamente maior. Seu rosto estava oculto em meio a uma cabeleira crespa e barba desgrenhada. Em cada um de seus braços exageradamente musculosos, saia uma lâmina que se projetava diretamente dos pulsos. Seu peito, abdômen e pernas também eram repletos de enormes músculos. Parou de frente para mim e quando fitei seus olhos, foi como se eu me reencontrasse com um velho companheiro que há muito não via. 

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“O Jardim”.

Foi o nome que o homem deu àquele lugar maravilhoso, onde a harmonia imperava e a morte não possuía qualquer efeito. Onde só habitavam as mais pacíficas criaturas, lideradas pelo homem e a mulher, a quem todos respeitavam. Às vezes me perguntava se aquele estado pacífico era um aperfeiçoamento de um estado original ou era o estado original de uma natureza que por algum motivo havia sido deturpado.

Homem e mulher trabalhavam muito, o tempo todo juntos. Era interessante a forma harmoniosa com que conviviam. O homem parecia ser o líder, mas ele sempre ouvia a mulher e a respeitava muito.

Todas as decisões eram tomadas em conjunto e quase não havia discórdia. Estas, quando surgiam, eram sanadas pela consulta ao Criador. Nestes momentos, homem e mulher se retiravam para um lugar ermo, construído especialmente para o propósito. Lá,  tinham uma conversa muda com o Celestial, nome que deram ao  seu Criador. Chegavam, então, a uma conclusão para o empasse baseada na resposta dada pelo Criador. Era uma forma bem peculiar de fazer as coisas, pois fora do jardim as decisões eram sempre tomadas pelos machos. Às fêmeas e às crias, só restava a obediência.

Aos poucos a ideia de um Criador pessoal foi fazendo mais sentido para mim. Afinal, não faria sentido algum uma vida dedicada à manutenção da existência, se tudo terminasse na morte. Mas a existência e ação do Criador mudava tudo, pois representa a continuidade. Era algo que fazia a vida valer a pena.

Comecei a sentir certa inveja do relacionamento do homem e da mulher com o Criador. Queria também poder ter o acesso que eles tinham com esse Pai Celestial.

sábado, 6 de agosto de 2016

Capítulo 12: Obras primas



- O princípio da criação- disse-me o homem- não é o caos ou a ordem, mas o que já existia antes, na mente do Criador.
-Somos eternos porque já existíamos na mente da eternidade – comentei.
- Ou talvez vivamos agora na mente do Criador.
-Seres imaginários na mente do Único que de fato existe?
-Seres imaginários não possuem autonomia. Eles fazem aquilo que lhes é mandado por quem os imagina.
-Mas como ter certeza de que somos seres autônomos?

Ele apontou para a árvore ao lado. Aquela que ficava bem ao lado da árvore da vida. O homem havia me dito que ela se chamava “arvore do conhecimento do bem e do mal”. Era um pouco menor do que a árvore da vida e seus frutos eram menores e marrons.

- Foi me dito que posso provar do fruto de qualquer árvore – disse o homem – menos do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Se nós respeitarmos essa restrição, jamais teremos contato com o mal que existe fora deste lugar e iremos expandir nossa influencia para todo o mundo.

-“Nós?”

O homem sorriu. E apontou para a outra direção. Uma fêmea da mesma espécie do homem foi se aproximando, caminhando lentamente. Ele disse-me que o nome dela seria “mulher”.

Nos dias que se seguiram, homem e mulher trabalharam prazerosamente dando nomes para todos os elementos da criação. Disseram-me que o período de luz, chamava-se “dia” e de trevas chamava-se “noite”. O grande luzeiro do dia chamaram “Sol” e o da noite chamaram “Lua”.  Também me disseram que chamariam de “animais”, a todos os seres vivos que se moviam. E cada tipo de animal recebeu o seu próprio nome: havia os “insetos”, os “répteis”, as “bestas feras”, os “peixes”. Os seres imóveis receberam o nome de “vegetais” e caca tipo também recebeu o seu próprio nome: “árvores”, “grama”, “flores”. Cada coisa recebeu o seu próprio nome em um trabalho de vários dias e várias noites.

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De alguma forma muitas coisas já me pareciam por demais conhecidas, como se eu já tivesse experimentado uma existência antes da existência. Comecei a pensar neste Criador e no papel que eu estava desempenhando dentro de tudo o que estava acontecendo. Cheguei à conclusão de que a minha função era de certa forma fundamental, mas não tanto quanto a do homem e da mulher. De fato, eles eram a obra prima de toda a criação e tudo o que existe foi criado para auxiliá-los nesta tarefa. Qual seria essa tarefa?

Fiquei pensando nisto por longos períodos e cheguei à conclusão de que esta resposta ainda não estava pronta para ser dada.

sábado, 30 de julho de 2016

Capítulo 11: O Criador


 Vida...

Que palavra maravilhosa! Tão frágil, tão persistente, tão inquieta. Sempre mudando de forma através dos tempos. E como mudou desde a última vez em que saí da matriz! Seres gigantescos que se tornaram menores, fracos que se tornaram fortes, belos que se tornaram não tão belos. Contudo, a mudança não se limitava na aparência física. O comportamento dos seres havia também se modificado.

A experiência e observação haviam me ensinado que criaturas com pares de olhos na frente da cabeça, eram os predadores. Os que possuíam olhos nas extremidades da cabeça eram as presas. Mas aqui, neste mundo restaurado, não era assim. Todos os seres viviam harmoniosamente, buscando entre os vegetais a energia necessária para sua sobrevivência.

Ligada à matriz estava à árvore da vida, cujos frutos tinham a capacidade de manter vivas as criaturas por incontáveis luzes, até mesmo aquelas que normalmente não costumam viver tanto tempo.

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Fazia muito tempo que eu não via uma criatura como ela. Estava muito deferente, mas reconheci assim que a vi se aproximando. Estava menor, menos forte, o corpo sem pelos, exceto o rosto ao redor da boca e acima, na cabeça.

Aproximou-se andando ereto sobre as duas patas, retirou uma das frutas da árvore da vida e comeu. Assim que engoliu do fruto, senti que eu estava conectado àquela criatura assim como há muito tempo, havia estado com seu antepassado.

- Sou o homem – disse ele, em pensamento.
- Sou a matriz, respondi.
- Fui orientado a vir aqui para lhe dar um nome – disse ele enquanto dava mais uma mordida no fruto – Rael será seu nome.
- Orientado por quem?
- Por meu Criador e teu Criador
- Quem é o Criador? Perguntei.
- Ele é o que é antes do mundo ser criado e continuará sendo depois de o mundo passar.
- Onde ele está?
- Em toda parte. Estamos mergulhados nele agora.
 - Como vou saber se o que você diz é verdade?
- Você já sabe, Rael... Você já sabe...
Ao dizer isso, deu mais uma mordida no fruto e foi caminhando, se afastando da árvore.
- Aonde vai? Perguntei, pois ainda tinha muitas perguntas para fazer.
-Ainda tenho muitas coisas para colocar nomes. É um trabalho exaustivo.
- E porque me chama Rael?

O homem não respondeu e nossa conexão terminou.

Durante muito tempo fiquei refletindo sobre essa nova revelação. Sobre este criador que existe desde a eternidade e que está em toda parte. Como o homem consegue entrar em contato com ele? Como um ser tão limitado no espaço e no tempo consegue compreender e se comunicar com um ser tão poderoso e ilimitado? De que forma isso acontecia? Achei tudo aquilo muito surpreendente.

O eterno ciclo de caos e ordem tinha, afinal, um maestro. Ele cria o caos e dele faz nascer a ordem. Ele criou a vida e todas as condições que a sustenta. Criou as condições para que a vida se modifique, sobreviva, cumpra o seu papel neste mundo e dê espaço para outras formas. Ele criou as estrelas, o grande luzeiro do dia e o grande luzeiro da noite. E ele me criou.

Eu... Eu

Palavra interessante.


Eu sou Rael.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Capítulo 10: Da ordem ao caos.


O caos...

É a matéria prima da criação, o início de tudo. Tão necessária quanto à ordem.

Toda a realidade que nos cerca é na verdade um palco, onde a ordem e o caos bailam uma dança cósmica.

A ordem é o caminho a ser trilhado. O objetivo de tudo o que existe. O caos é o saneador que sempre surge quando a ordem perde o seu vigor. Depois do caos, que a tudo vence, derruba e flagela, sempre há um novo começo e a ordem inicia o seu trabalho, transformando tudo e todos.

Sou um elemento de caos e de ordem. De caos, para derrotar a ordem caquética e de ordem, para começar tudo novamente fornecendo a energia necessária para o trabalho. Meu corpo é essa matriz, capaz de gerar energia da vida e da morte. O corpo é controlado pela mente. Com ela eu controlo a energia que pelo corpo é criado. Energia de vida e de morte.

Nem percebi quando comecei a fornecer energia para outra forma de vida. Quando dei por mim, estava envolto em uma grande raiz e, acima do solo, desenvolvia-se uma árvore que prometia ser um esplendor de beleza.

Com a ajuda da matriz em sete dias, a árvore se tornou a maior e a mais bela da região.  Seus frutos eram de um espetacular azul, seu tronco, forte e resistente. Os galhos eram fortes e imponentes, deixavam à mostra as folhas vistosas. Distinta e imponente. Nos sete dias seguintes, outra árvore cresceu ao lado. Menor e menos majestosa, mas suficientemente bela e especial para que nenhum ser ousasse se aproximar dela e tocar em seus frutos.



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Nos dias que se seguiram, outras vegetações foram surgindo: árvores de diversos tipos, carregadas de frutos, uma grama verdíssima e tufos de relva que se formavam em várias localidades.

A água deslizava tranquilamente por entre um rio que regava toda a vegetação circundante, se dividindo em quatro mais a frente. Era um maravilhoso lugar. Novamente, eu havia encontrado a ordem em meio ao caos, onde toda a violência, toda a injustiça e toda a morte estavam do lado de fora. Ali, imperava a harmonia. Não havia predador e nem vítimas. Como um acordo selado entre todos os seres, os vegetais eram a fonte de alimento. Alimentavam-se também dos frutos daquela árvore, cuja raiz estava conectada à matriz. Destes frutos, grandes e azuis, tiravam o vigor e a vida, muito superiores aos dos seres que estavam do lado de fora deste surpreendente lugar.

Uma centelha de felicidade se formou em meu íntimo que nos últimos tempos fora tão castigado pelo desespero e desolação. Um novo mundo se iniciara e eu estava ansioso para começar a explorá-lo e aprender sobre ele.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Capítulo 9: Mais uma vez, o caos

De onde vem a noção de certo e errado? O que definiu os limites do permitido? Sigo em frente acreditando e realizando, julgando e descobrindo novos parâmetros e, assim, vou me imponto perante a realidade que me rodeia.

Quando o portador da matriz deu a ordem para que seus companheiros matassem todas aquelas fêmeas e filhotes, senti que precisava agir. Pela força da minha vontade, fui liberando energia da matriz, porém da forma mais lenta possível. As partículas que friccionavam o material condutor começaram a produzir um calor tão intenso que o portador foi obrigado a largar a pedra.

Ao tocar o solo, liberei toda a energia de uma vez. O estrondo que se seguiu fez a terra tremer. Toda a região se iluminou com uma forte luz azulada. A onda de choque liberada mandou para longe todos os que estavam a minha frente. Assustadas, as fêmeas e suas crias escondidas no topo das árvores fugiram. Menos uma, que no meio da confusão, voltou para pegar a matriz e fugir rapidamente, deixando para trás um confuso e, agora, desarmado líder.


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Todo este mundo está errado. Ou serei eu, como objeto estranho, a funcionar incorretamente? Tudo o que vejo pelos quatro cantos deste mundo é o forte subjugando o mais fraco: O macho que subjuga a fêmea e contra a sua vontade a possui.  O adulto que destrói as crias mais fracas de outras espécies e não raramente, os da sua própria espécie, o grupo mais forte e poderoso que elimina o grupo mais fraco sem nenhuma piedade.

As próprias forças motrizes do mundo parecem beneficiar somente os mais fortes enquanto incontáveis seres inocentes são banidos da existência.

O caos ...

É a única coisa que consigo ver.

Todavia, encontro a paz neste buraco em que aquela fêmea me enterrou.


E tudo fica escuro.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Capitulo 8: Limites


Sou uma arma. Programado para defender quem tiver a mínima condição para utilizar os meus recursos. Essa foi à conclusão a que cheguei até aqui. Será que fui criado como uma arma? Por quem? Ou será que sou apenas uma forma diferente de vida, que necessita viver em simbiose com outros seres?

Desde que e fui achado por essa criatura, sinto como se estivesse conectado a ela. Sinto o que ela sente, vejo o que ela vê, só mantendo, contudo, a minha autonomia. Ajo se assim quiser. Tudo o que preciso fazer é querer e uma energia sai do interior da matriz. Por enquanto, tudo o que consigo fazer é projetar raios e gerar campos de força, mas acho que a matriz é capaz de fazer muito mais. De alguma forma a energia irradiada é capaz de alimentar outros seres vivos e uma longa exposição ela, aumenta a força e a resistência.

E assim, o portador da matriz teve um prolongamento do seu tempo de vida. Conseguiu criar e manter um grupo que aumentou se tornando um dos maiores senão o maior das regiões por onde passou. Também caçou e destruiu o maior predador de sua espécie, o terrível felino. Com a matriz em suas mãos, que nunca mais largou depois do incidente com o antigo líder, tornou-se temido e respeitado.

Quanto a mim, vivi a minha vida do ponto de vista dele. Protegi-o, ajudei-o a conquistar, a vencer todos os obstáculos e afugentar todos os inimigos, mesmo sem saber o porquê, pois aprendi a importância de se ter um objetivo e o meu, era o de testar minhas capacidades e limites.

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Minhas capacidades e limites...

Dei de cara com ela, não muito tempo depois.

A escuridão havia caído já há algum tempo. Mas ele não queria parar. O grupo havia crescido demais e precisava desesperadamente de novas áreas, devido à rapidez com que consumiam os recursos da região.

Com cautela, os machos do grupo iam à frente, enquanto as fêmeas e suas crias os seguiam igualmente cuidadosas. Normalmente, o grupo não e deslocava assim no escuro, quando eram mais vulneráveis aos predadores. Contudo, a necessidade obrigava. E, além disso, estavam confiantes no seu líder, que ia à frente de todos suspendendo a matiz que iluminava o caminho com sua luz azul.

Em meio à penumbra, o silêncio só era quebrado pelo som de centenas de passos esmagando a vegetação seca. Súbito, o portador da matriz parou de caminhar e se colocou em alerta, movimento que foi copiado por todos os machos do grupo que estavam à frente. Com a luz que saia da matriz, ele tentava iluminar a vegetação um pouco mais alta a sua frente e teve um sobressalto ao se deparar com um rosto feroz que o encarava ameaçadoramente.

Uma furiosa e robusta criatura, muito semelhante aos indivíduos do grupo ao qual eu acompanhava, saltou sobre a vegetação, empurrando o portador da matriz, derrubando-o. De súbito, várias outras criaturas começaram a surgir, efetuando um rápido ataque aos machos do grupo.  

Desde o antigo líder, ninguém havia tido a coragem de atacá-lo daquela forma. Não com a matriz em sua posse. Agarrando a matriz com força, desferiu um golpe no crânio de seu inimigo, que caiu inerte no solo.

Aquela espécie de criatura, apesar de semelhantes aos que eu já conhecia, era distinta em algumas coisas. Seu crânio era maior, seu rosto era mais largo e possuíam menos pêlos no corpo.

Ele ergueu a matriz, que brilhou com sua luz intensamente azul. Fui direcionando os raios que ribombaram contra os machos do grupo adversário, derrubando-os um a um. Foram todos mortos, instantaneamente.

Eliminado a ameaça, nossa jornada continuou em frente. Um gruído estridente atrás de nós avisava para as fêmeas e as crias, que podiam sair de seus esconderijos.

Batalhas como essa, em busca de regiões, eram raras em uma população nômade. Todavia, quanto maior um grupo, mais rápido os recursos do local eram consumidos, aumentando a frequência dos deslocamentos. E, vez por outra, topávamos com outros grupos pouco afeitos a compartilhar os escassos recursos, tampouco em procurar outra região e matar de fome seus filhotes em um processo que poderia demorar vários dias. Neste caso, a luta era a única alternativa de sobrevivência.

Vigilantes e cautelosos, o grupo avançou. O luzeiro, grande e redondo, brilhando imponentemente, circundado pelas inúmeras estrelas afixadas no firmamento, parecia que nos observava, curioso em saber como terminaria nossa jornada.

Novamente, e repentinamente, o líder parou, sinalizando para que todos fizessem o mesmo. Apontou a matriz para o topo de um grupo de árvores logo adiante. A pedra brilhou intensamente e a luz azul revelou um grupo de fêmeas e filhotes, acompanhantes daqueles machos que haviam nos atacado há instantes atrás, e que agora jaziam.

O líder se aproximou vagarosamente. Dava para ver as expressões de medo daquelas fêmeas, apoiadas nos galhos, segurando seus filhotes igualmente amedrontados. Apontou a matriz para eles. Senti a sua intenção, que barrei no mesmo instante. Não vou matar filhotes! Não quero fazer isso! Ele olhou confuso para a pedra. Repetiu o gesto, mas nada aconteceu.

Frustrado e furioso, ele deu ordens para que seus companheiros matassem todos.

Se existe uma coisa que sempre me incomodou, são os mais fortes ameaçando os mais fracos...

terça-feira, 5 de julho de 2016

Capítulo 7: O mais poderoso

De todas as criaturas com as quais convivi até aqui, essas são as que mais me impressionaram. Em matéria de atributos físicos, obviamente, já havia visto animais muito mais velozes e fortes.  Todavia, duvido que existam outros seres mais inteligentes.  

A falta de velocidade e força compensavam com ferramentas pontiagudas feitas de madeira ou pedra, para a caça pequenos animais. Alimentava-se, também, da carcaça que eram deixadas por outros animais e, para isso, descolavam-se em grupos de machos, arriscando a vida em territórios de predadores. Como não possuíam garras afiadas, usavam suas ferramentas de pedra para retirar a carne dos ossos. Também se alimentavam de frutos que colhiam nas matas.

Organizavam-se em torno de um líder, geralmente o mais forte e o que dominava melhor a arte de criar armas de pedra. Geralmente, formavam grupos pequenos. Um macho líder, seis ou sete outros machos e em média 20 fêmeas com suas crias.


As interações com outros grupos da mesma espécie eram raras. Normalmente, o grupo ficava alocado em uma região, consumindo todos os recursos. Quando os alimentos se tornavam escassos, o grupo mudava-se para outra localidade.

Como novo líder, o portador da matriz ganhou o direito de receber um bocado maior de carne e também o de poder coabitar com um maior número de fêmeas. Rapidamente, ele ganhou o respeito de todos do grupo: em certo momento, o antigo líder movido pela fúria e ressentimento, armou-se com um pedaço de madeira e investiu contra o portador da matriz, que estava de costas em pleno coito com aquela, que antes havia sido a sua preferida.

Avisado no último momento pelo grito da amante, o portador da matriz quase não teve tempo de desviar-se do golpe que atingiu em cheio a cabeça da fêmea, matando-a instantaneamente.
Aterrorizado, tentou se levantar e correr. Tropeçou e caiu enquanto o antigo líder andava, ameaçadoramente segurando o pedaço de madeira ensanguentado na ponta. Arrastou-se sobre os quatro membros e conseguiu alcançar a matriz que havia escondido. Hesitei por um momento em ajuda-lo, mas, enfim, resolvi agir: uma imensurável força de vontade ativou a matriz e do seu centro, um relâmpago de cor azulado irrompeu, atingindo com um estrondo o peito do antigo líder, que foi arremessado do chão.  Caiu morto, corpo em chamas, em meio a gritos, correria e olhos arregalados do grupo.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Capítulo 6: O novo líder



Ao que parece somente o líder do grupo podia portar uma arma.  Ao ver outro macho do grupo com a matriz na mão, o líder se sentiu ameaçado e desafiado. Exigiu que seu liderado largasse o objeto. Mas ele não podia mais fazê-lo. Estávamos em profunda conexão: eu, a matriz e o ser que a segurava.

Ele nunca havia desafiado alguém de sua espécie antes. Fora criado para obedecer. Tentou novamente largar o estranho objeto, mas não conseguiu. O líder grande e robusto andou em sua direção, com o olhar de quem não estava acreditando no que estava acontecendo. Agora, aquele que empunhava a matriz, só tinha duas opções: lutar para se tornar o novo líder, ou morrer.

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A vida é mesmo muito frágil. É apenas um recipiente cheio de líquido. Quebre o recipiente e o líquido se esvai, sumindo na terra.

O maior se aproveitando do menor é uma coisa que sempre me incomodou. Quando o líder desferiu o primeiro golpe com sua arma de pedra, o portador da matriz tentou se defender cobrindo a cabeça com os braços, em um ato de puro reflexo. Todos ficaram espantados, quando a ponta do objeto se estilhaçou em um campo de força.  De alguma forma eu sabia que este efeito fora causado por minha vontade de defender o mais fraco e a energia estava saindo da matriz, que naquele momento começou a brilhar em um tom intensamente azul.


Percebendo o que estava acontecendo, o portador da matriz levantou-a ameaçadoramente. Um raio de luz azul saiu do interior da matriz como um relâmpago e explodiu na copa de uma árvore, provocando uma chama. O antigo líder e seus companheiros caíram por terra devido ao susto, enquanto o novo líder, o portador da matriz, foi o único a ficar em pé. 

terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 5: Disputa



Vida...

Maravilhosa e tão frágil, que não é preciso muita coisa para extingui-la. Imaginei quantas delas foram perdidas no momento em que aqui cheguei. Me senti mal.

A luz mal acabara de surgir quando uma curiosa criatura se aproximou, saindo de trás dos galhos secos. O corpo arredondado coberto de pelos marrons, cabeça grande, com focinho proeminente. Andava sobre as quatro patas e assim que surgiu, foi logo se dirigindo para os lados da grama verde. Sua boca ao abrir, revelava duas fileiras de dentes curtos e achatados, com os quais arrancava a grama com vigor. Fiquei observando com curiosidade o que para mim era uma interessante novidade e só fui perceber que não estávamos sozinhos, quando outro animal subitamente pulou por cima de onde eu estava, cravando as poderosas presas no pescoço de sua vítima, sem chances de reação.


Os gritos estridentes do animal em agonia me causaram uma impressão de desconforto extremo.  Havia algo na ideia do mais forte dominando o mais fraco, que não me agradava.

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A vida é maravilhosa e frágil. Esvai-se como um fluido cujo recipiente foi destruído. Quando o predador finalmente foi embora, deixou atrás de si uma carcaça banhada de líquido vermelho.



O ruído das folhagens denuncia a chegada de novos visitantes. A visão é ofuscada pela luz, mas consigo ver a aproximação de uma criatura que não se assemelha a nada com o que eu tinha visto até então. Não era tanto o fato de ele andar ereto sobre as duas patas, mas sim a sensação confusa que me fez, ao mesmo tempo, admirar a sua imagem distinta e me sentir reencontrando um velho amigo.

Não era muito alto se comparado aos gigantescos animais que eu já havia visto em outras regiões. Seus membros superiores eram ligeiramente mais longos que os inferiores.  Movia-se não como as demais criaturas, guiadas exclusivamente pelos extintos e sentidos, mas avaliava o ambiente de forma consciente.

Também não possuía garras ou chifres. Contudo, carregada com vigor um objeto pontiagudo que, muito provavelmente, era usado para defesa.



Atravessou a barreira de arbustos e logo revelou que não estava sozinho: outros quatro, da mesma espécie, o seguia. Com muito cuidado, se aproximaram da carcaça que o predador havia deixado. O maior dentre eles, o que portava o objeto pontiagudo e, aparentemente, o líder do grupo, agachou-se sobre o cadáver e começou a raspar a carne do animal morto usando a ferramenta.

Enquanto eu observava a cena não percebi a presença de um quinto membro do grupo que chegara atrasado. Ele olhou com curiosidade para a matriz que repousava no chão. Segurou-a com firmeza e suspendeu até a altura dos olhos. Pude vislumbrar o seu rosto animalesco e ficamos estudando um ao outro por algum tempo.

Um grunhido forte. E quando olhei, o líder do grupo estava fitando, com raiva, àquele que havia pegado a matriz. Todos os que estavam agachados sobre o cadáver do animal se levantaram rapidamente, assustados com o som ameaçador emitido pelo seu líder. Com olhos arregalados, cambiavam os olhares do líder para nós e de nós para o líder.

Uma disputa parecia que ia se iniciar.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Capítulo 4: Vida



Às vezes, aqui preso na Matriz, tenho visões. Vislumbres de um mundo parecido, mas ao mesmo tempo diferente deste. Um céu avermelhado, aonde brilha uma estrela amarela como esta, embora não tão nítida por causa da fumaça que envolve todo o firmamento. Vejo também uma gigantesca figura, estranhamente familiar. Diferentemente da maioria dos animais que encontrei por aqui, ele anda em duas pernas. Aparenta ser incrivelmente forte e musculosa. Em ambas as extremidades de seus gigantescos membros superiores, despontam duas ameaçadoras lâminas. Ele esta caminhando resolutamente em minha direção. Visão? Sonho? Sinceramente, não sei.

O certo é que estou voando entre o bico desta ave já há algum tempo, pois a grande estrela já surgiu e se retirou 140 vezes. Já atravessamos florestas, picos gelados, áreas desertas e grande extensão líquida. Já paramos e retomamos a viajem inúmeras vezes. Quando finalmente consigo visualizar a terra firme, reconheço que já sobrevoei essa região muitas vezes. Sei que é uma área incrivelmente povoada por diversos tipos de animais, com muita diversidade vegetal e logo mais ao norte, uma imensa área deserta.

Qual seria interesse de uma ave na matriz, não sei. Mal tive tempo de conjecturar sobre o assunto e outra veloz, furiosa e implacável ave nos atacou, cravando suas poderosas e afiadas garras no pescoço de sua vítima.

No impulso de se defender, a ave soltou a matriz que caiu embrenhando-se na mata. Ficamos alocados no solo, em meio às folhagens, perto de uma gigantesca árvore. Ainda podia ouvir o duelo das aves que acontecia acima. O rebuliço pôs em movimento uma gama de animais que estavam abrigados nas copas, porém, o som do combate cessou e logo imperou o silencio.

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A noite na floresta é muito mais agitada do que eu estava acostumado, com inúmeros animais de hábitos noturnos que vieram me visitar. Muitos seres rastejantes, outros voadores de oito patas, um bem pequeno e espinhoso que passou algum tempo a me cutucar.

Esforcei-me para sair da matriz, a fim de fazer um reconhecimento do que provavelmente seria o meu novo lar por muito tempo. Mesmo a noite, a região borbulha vida.

Vida...

Que tipo de mágica é essa? Como um punhado de elementos inanimados se combinaram em suas exatas proporções e criam todas essas maravilhas? O que definiu tais valores? Uma inteligência? Um feliz acidente? Comecei então, a pensar que toda a vida, talvez, fosse sagrada e que merecia ser protegida.

Foi exatamente após ter concluído isso, que um tipo especial de vida passou a fazer parte da minha. 

domingo, 19 de junho de 2016

Capítulo 3: A Matriz


Quanto mais observo este lugar, mais me afeiçoo a ele. Com o tempo, ganho a capacidade de permanecer por longos períodos fora de minha “prisão”, o que me permite conhecer muitos lugares diferentes: imensas áreas verdes repletas dos mais variados tipos de seres vivos, regiões áridas e desabitadas, gigantescas e belíssimas montanhas de gelo e um extensa, quase infinita região líquida.

Contudo, não é um lugar estático. Movimentos e transformações são constantes. De tempos em tempos, há mudança nas paisagens. Terremotos e maremotos com poderes de criar novas regiões secas ou de fazê-las sumir, atividades vulcânicas capazes de dar origem a novas ilhas, movimentações de extensas áreas de terra que, ao se chocarem com outras, dão origens a montanhas gigantescas, vida vegetal ampla e variada que nasce, morre e renasce, espécies de animais que desaparecem e outras que proliferam.

Avanço em direção ao horizonte e me maravilho com o espetáculo da grande estrela, que ao se esconder dá a impressão de pintar o céu com cores avermelhadas e laranjadas, dando lugar à imensa rocha arredondada e brilhante. Não me canso de admirar as incontáveis estrelas, emitindo a sua luz e  piscando alegremente no céu enegrecido. 

Por mim, ficaria para sempre perambulando e observando as incríveis reviravoltas deste mundo maravilhoso. Mas sempre que o cansaço começa a apontar, sou arrastado de volta para a minha clausura azul brilhante, num abrir e fechar de olhos.

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Eu... Eu... Afinal, quem sou eu? Um fantasma? Algo intermediário entre um espírito e um ser vivente? Parte do tempo fico preso no interior desta pedra azul. Que objeto seria esse? Sei que é algo extremamente resistente, pois aguentou um impacto esmagador assim que cheguei e nem sequer sofreu uma rachadura. Notei também, que vez por outra, sai de seu centro uma luz azul intensa. Aqui dentro existe muita energia. Posso sentir de alguma forma.


Deste que chegamos, eu e a pedra azul, estamos aqui. Soterrados debaixo de terra e pedras. De alguma forma a energia que sai da pedra azul é capaz de fornecer vida às plantas e animais rasteiros das imediações. Parece que esta energia tem alguma capacidade nutritiva. É uma matriz. Uma fonte de vida.


Parece que eu também sou alimentado por esta energia. Por isso, às vezes, consigo sair e flutuar por ai. Quanto me torno fraco, sou trazido de volta instantaneamente para a matriz. Foi tudo o que consegui deduzir.



Meus pensamentos são interrompidos.


Um estrondo e um tremor. A terra racha de fora a fora. A claridade denuncia que estou a céu aberto. Uma ave esplendidamente negra pousa e rapidamente prende a matriz em seu bico, levantando voo e me levando junto.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Capítulo 2: Um novo lar

Posso sentir a onda de calor que se alastra, seguida de uma gigantesca onda de energia que evidencia um impacto de nível monstruoso. Não sei contra o que bati, mas não deve ter sobrado nada.

Sinto a energia sonora se espalhando violentamente e o invólucro mais externo que me revestia se espatifando. Sou arremessado para longe e tudo o que consigo ver através da pedra azulada que me envolve, única coisa que resistiu ao impacto, é uma densa poeira escura. Ondas de energia me invadem. O involucro que me retém, emitindo uma luz azul intensa, é como se estivesse se alimentando de toda aquela força causada pelo impacto.


Pela primeira vez consigo intuir a passagem do tempo. É estranha a sensação de ficar estático após tanto tempo perambulando sabe-se lá por onde. Ainda não dá para saber onde fui parar, pois só consigo ver uma densa cortina de poeira preta. Subitamente, sou surpreendido por um sacolejo violento, explosões e atividade vulcânica. Novamente o caos se instala ao meu redor. Algo está me arrastando. Conheço isso... é água e também fogo....

Pedaços de rocha incandescente caem próximos a mim. Aos poucos, vou sendo coberto por toneladas de detritos.  E tudo fica escuro novamente.

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Eu.... Eu... palavra interessante.

Sensações de ter sido alguém um dia.  De ter tido um vida diferente. De um dia ter sido livre. E então, nasce um impulso. Uma avassaladora vontade de ser livre. Luto para me libertar de uma forma que não compreendo. Apenas luto. Faço um esforço monumental.

Uma forte claridade irrompe. Sinto que estou me movendo, escapando do invólucro azulado que me prende. Mas também sinto algo me puxando. Seja lá o que for, não quer que eu saia. Esforço-me ainda mais.  A angustia toma conta de mim. Avanço lentamente, lutando, me libertando.  E venço. O que quer que estivesse me puxando, desistiu. Estou livre.

Estranhamente familiar a paisagem que se põe à minha frente. Passeando, vislumbro rios, riachos, córregos vegetação rasteira. Animais! Pequenos animais perambulando alegremente em meio a grama! Continuo em frente. Ultrapasso montanhas e planícies. Risco o céu azul com velocidade. Atravesso sem dificuldade um rochedo e saio do outro lado. Estou feliz! Estou livre! Passo no meio de um grupo de árvores e posso ver aves multicoloridas sobrevoando acima delas.
Um sentimento muito bom se apodera de mim. Que lugar incrível!



Súbito, vou perdendo velocidade. Voar se torna cada vez mais difícil. Por mais que eu me esforce para seguir em frente, acabo parado no ar e, então, sou puxado para trás com violência.

Num piscar de olhos estou de volta à minha prisão azul.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Capítulo 1: Big Bang.


O caos. É tudo do que me lembro do princípio.  Uma imensa massa luminosa, agitando-se freneticamente. Pensamentos confusos. É difícil focar em algo, até porque duvido que exista algo para focar. O escuro. Quando “desperto”, o ambiente que se apresenta é totalmente diferente. Vejo laços, inúmeros pares de cordões movimentando-se como pêndulos. Confusão. Escuro novamente.

Quando volto, o ambiente está menos confuso. Sinto uma necessidade enorme de aprender. Uma fome incontrolável de conhecimento. Movido unicamente pelo desejo, me aproximo de um dos milhares de pares de laços espalhados ao meu redor. Observo-os com atenção. Vislumbro o seu brilho levemente acinzentado e o seu vibrar.



Percebo que, conforme cada corda do par vibra, objetos surgem repentinamente e são lançados com grande velocidade. Curioso. O que haveria de ser isso? Percebo que milhares de milhares de objetos são lançados no espaço.

Cada laço vibra de uma forma diferente e produz objetos levemente distintos dos outros. Com o tempo, todo o ambiente está coberto por esses elementos, que começam a colidir uns com os outros, dando origem a novos objetos. Logo, todo o ambiente está saturado desses elementos. Uma confusão se instaura, com milhares de objetos se batendo violentamente.

Novamente o caos. Súbito clarão. E novamente o escuro.



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“Eu”... “Eu”... Que palavra interessante. Pela primeira vez me reconheço como alguém e noto que o que está a minha volta não faz parte de mim, como pensava. Ao meu redor, uma nuvem azul brilhante. Já não consigo me mover como antes e isso não me incomoda. Sinto-me extremamente confortável como estou.

 Percebo que o ambiente mudou completamente. Já não consigo ver aqueles curiosos laços, movimentando-se e vibrando. Ao invés disso, através da nuvem que me envolve, observo um imenso espaço repleto de objetos e luz. Embora imóvel, a nuvem me leva adiante, assim como tudo o que está ao meu redor.

Pouco a pouco, percebo que a nuvem ao meu redor se modifica, saindo de uma aparência gasosa para solida. Tudo se torna compacto. Estou preso em um ponto de luz azul, envolto em algum tipo de objeto sólido. Um brilho intensamente azul me atravessa e atraído por ela, vários objetos me circundam.  Aos poucos, estou coberto de objetos dos mais variados tamanhos. A luz cessa. Escuro novamente.