Vida...
Maravilhosa e tão frágil, que não
é preciso muita coisa para extingui-la. Imaginei quantas delas foram perdidas
no momento em que aqui cheguei. Me senti mal.
A luz mal acabara de surgir
quando uma curiosa criatura se aproximou, saindo de trás dos galhos secos. O
corpo arredondado coberto de pelos marrons, cabeça grande, com focinho
proeminente. Andava sobre as quatro patas e assim que surgiu, foi logo se
dirigindo para os lados da grama verde. Sua boca ao abrir, revelava duas
fileiras de dentes curtos e achatados, com os quais arrancava a grama com
vigor. Fiquei observando com curiosidade o que para mim era uma interessante novidade
e só fui perceber que não estávamos sozinhos, quando outro animal subitamente
pulou por cima de onde eu estava, cravando as poderosas presas no pescoço de
sua vítima, sem chances de reação.
Os gritos estridentes do animal
em agonia me causaram uma impressão de desconforto extremo. Havia algo na ideia do mais forte dominando o
mais fraco, que não me agradava.
**************
A vida é maravilhosa e frágil.
Esvai-se como um fluido cujo recipiente foi destruído. Quando o predador finalmente
foi embora, deixou atrás de si uma carcaça banhada de líquido vermelho.
O ruído das folhagens denuncia a
chegada de novos visitantes. A visão é ofuscada pela luz, mas consigo ver a
aproximação de uma criatura que não se assemelha a nada com o que eu tinha
visto até então. Não era tanto o fato de ele andar ereto sobre as duas patas,
mas sim a sensação confusa que me fez, ao mesmo tempo, admirar a sua imagem
distinta e me sentir reencontrando um velho amigo.
Não era muito alto se comparado
aos gigantescos animais que eu já havia visto em outras regiões. Seus membros
superiores eram ligeiramente mais longos que os inferiores. Movia-se não como as demais criaturas, guiadas
exclusivamente pelos extintos e sentidos, mas avaliava o ambiente de forma
consciente.
Também não possuía garras ou
chifres. Contudo, carregada com vigor um objeto pontiagudo que, muito
provavelmente, era usado para defesa.
Atravessou a barreira de arbustos
e logo revelou que não estava sozinho: outros quatro, da mesma espécie, o
seguia. Com muito cuidado, se aproximaram da carcaça que o predador havia
deixado. O maior dentre eles, o que portava o objeto pontiagudo e,
aparentemente, o líder do grupo, agachou-se sobre o cadáver e começou a raspar
a carne do animal morto usando a ferramenta.
Enquanto eu observava a cena não
percebi a presença de um quinto membro do grupo que chegara atrasado. Ele olhou
com curiosidade para a matriz que repousava no chão. Segurou-a com firmeza e
suspendeu até a altura dos olhos. Pude vislumbrar o seu rosto animalesco e
ficamos estudando um ao outro por algum tempo.
Um grunhido forte. E quando
olhei, o líder do grupo estava fitando, com raiva, àquele que havia pegado a
matriz. Todos os que estavam agachados sobre o cadáver do animal se levantaram
rapidamente, assustados com o som ameaçador emitido pelo seu líder. Com olhos
arregalados, cambiavam os olhares do líder para nós e de nós para o líder.



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