domingo, 19 de junho de 2016

Capítulo 3: A Matriz


Quanto mais observo este lugar, mais me afeiçoo a ele. Com o tempo, ganho a capacidade de permanecer por longos períodos fora de minha “prisão”, o que me permite conhecer muitos lugares diferentes: imensas áreas verdes repletas dos mais variados tipos de seres vivos, regiões áridas e desabitadas, gigantescas e belíssimas montanhas de gelo e um extensa, quase infinita região líquida.

Contudo, não é um lugar estático. Movimentos e transformações são constantes. De tempos em tempos, há mudança nas paisagens. Terremotos e maremotos com poderes de criar novas regiões secas ou de fazê-las sumir, atividades vulcânicas capazes de dar origem a novas ilhas, movimentações de extensas áreas de terra que, ao se chocarem com outras, dão origens a montanhas gigantescas, vida vegetal ampla e variada que nasce, morre e renasce, espécies de animais que desaparecem e outras que proliferam.

Avanço em direção ao horizonte e me maravilho com o espetáculo da grande estrela, que ao se esconder dá a impressão de pintar o céu com cores avermelhadas e laranjadas, dando lugar à imensa rocha arredondada e brilhante. Não me canso de admirar as incontáveis estrelas, emitindo a sua luz e  piscando alegremente no céu enegrecido. 

Por mim, ficaria para sempre perambulando e observando as incríveis reviravoltas deste mundo maravilhoso. Mas sempre que o cansaço começa a apontar, sou arrastado de volta para a minha clausura azul brilhante, num abrir e fechar de olhos.

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Eu... Eu... Afinal, quem sou eu? Um fantasma? Algo intermediário entre um espírito e um ser vivente? Parte do tempo fico preso no interior desta pedra azul. Que objeto seria esse? Sei que é algo extremamente resistente, pois aguentou um impacto esmagador assim que cheguei e nem sequer sofreu uma rachadura. Notei também, que vez por outra, sai de seu centro uma luz azul intensa. Aqui dentro existe muita energia. Posso sentir de alguma forma.


Deste que chegamos, eu e a pedra azul, estamos aqui. Soterrados debaixo de terra e pedras. De alguma forma a energia que sai da pedra azul é capaz de fornecer vida às plantas e animais rasteiros das imediações. Parece que esta energia tem alguma capacidade nutritiva. É uma matriz. Uma fonte de vida.


Parece que eu também sou alimentado por esta energia. Por isso, às vezes, consigo sair e flutuar por ai. Quanto me torno fraco, sou trazido de volta instantaneamente para a matriz. Foi tudo o que consegui deduzir.



Meus pensamentos são interrompidos.


Um estrondo e um tremor. A terra racha de fora a fora. A claridade denuncia que estou a céu aberto. Uma ave esplendidamente negra pousa e rapidamente prende a matriz em seu bico, levantando voo e me levando junto.

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