sábado, 13 de agosto de 2016

Capítulo 13 Celestial


Talvez, o que somos seja resultado daquilo que já éramos e daquilo que vimos a ser através da experiência.

Em minhas mais remotas lembranças, se é posso assim chamar, vislumbro imagens de outro lugar, de outra época. De mim se aproxima uma criatura muito semelhante ao homem, embora notoriamente maior. Seu rosto estava oculto em meio a uma cabeleira crespa e barba desgrenhada. Em cada um de seus braços exageradamente musculosos, saia uma lâmina que se projetava diretamente dos pulsos. Seu peito, abdômen e pernas também eram repletos de enormes músculos. Parou de frente para mim e quando fitei seus olhos, foi como se eu me reencontrasse com um velho companheiro que há muito não via. 

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“O Jardim”.

Foi o nome que o homem deu àquele lugar maravilhoso, onde a harmonia imperava e a morte não possuía qualquer efeito. Onde só habitavam as mais pacíficas criaturas, lideradas pelo homem e a mulher, a quem todos respeitavam. Às vezes me perguntava se aquele estado pacífico era um aperfeiçoamento de um estado original ou era o estado original de uma natureza que por algum motivo havia sido deturpado.

Homem e mulher trabalhavam muito, o tempo todo juntos. Era interessante a forma harmoniosa com que conviviam. O homem parecia ser o líder, mas ele sempre ouvia a mulher e a respeitava muito.

Todas as decisões eram tomadas em conjunto e quase não havia discórdia. Estas, quando surgiam, eram sanadas pela consulta ao Criador. Nestes momentos, homem e mulher se retiravam para um lugar ermo, construído especialmente para o propósito. Lá,  tinham uma conversa muda com o Celestial, nome que deram ao  seu Criador. Chegavam, então, a uma conclusão para o empasse baseada na resposta dada pelo Criador. Era uma forma bem peculiar de fazer as coisas, pois fora do jardim as decisões eram sempre tomadas pelos machos. Às fêmeas e às crias, só restava a obediência.

Aos poucos a ideia de um Criador pessoal foi fazendo mais sentido para mim. Afinal, não faria sentido algum uma vida dedicada à manutenção da existência, se tudo terminasse na morte. Mas a existência e ação do Criador mudava tudo, pois representa a continuidade. Era algo que fazia a vida valer a pena.

Comecei a sentir certa inveja do relacionamento do homem e da mulher com o Criador. Queria também poder ter o acesso que eles tinham com esse Pai Celestial.

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