quinta-feira, 23 de junho de 2016

Capítulo 4: Vida



Às vezes, aqui preso na Matriz, tenho visões. Vislumbres de um mundo parecido, mas ao mesmo tempo diferente deste. Um céu avermelhado, aonde brilha uma estrela amarela como esta, embora não tão nítida por causa da fumaça que envolve todo o firmamento. Vejo também uma gigantesca figura, estranhamente familiar. Diferentemente da maioria dos animais que encontrei por aqui, ele anda em duas pernas. Aparenta ser incrivelmente forte e musculosa. Em ambas as extremidades de seus gigantescos membros superiores, despontam duas ameaçadoras lâminas. Ele esta caminhando resolutamente em minha direção. Visão? Sonho? Sinceramente, não sei.

O certo é que estou voando entre o bico desta ave já há algum tempo, pois a grande estrela já surgiu e se retirou 140 vezes. Já atravessamos florestas, picos gelados, áreas desertas e grande extensão líquida. Já paramos e retomamos a viajem inúmeras vezes. Quando finalmente consigo visualizar a terra firme, reconheço que já sobrevoei essa região muitas vezes. Sei que é uma área incrivelmente povoada por diversos tipos de animais, com muita diversidade vegetal e logo mais ao norte, uma imensa área deserta.

Qual seria interesse de uma ave na matriz, não sei. Mal tive tempo de conjecturar sobre o assunto e outra veloz, furiosa e implacável ave nos atacou, cravando suas poderosas e afiadas garras no pescoço de sua vítima.

No impulso de se defender, a ave soltou a matriz que caiu embrenhando-se na mata. Ficamos alocados no solo, em meio às folhagens, perto de uma gigantesca árvore. Ainda podia ouvir o duelo das aves que acontecia acima. O rebuliço pôs em movimento uma gama de animais que estavam abrigados nas copas, porém, o som do combate cessou e logo imperou o silencio.

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A noite na floresta é muito mais agitada do que eu estava acostumado, com inúmeros animais de hábitos noturnos que vieram me visitar. Muitos seres rastejantes, outros voadores de oito patas, um bem pequeno e espinhoso que passou algum tempo a me cutucar.

Esforcei-me para sair da matriz, a fim de fazer um reconhecimento do que provavelmente seria o meu novo lar por muito tempo. Mesmo a noite, a região borbulha vida.

Vida...

Que tipo de mágica é essa? Como um punhado de elementos inanimados se combinaram em suas exatas proporções e criam todas essas maravilhas? O que definiu tais valores? Uma inteligência? Um feliz acidente? Comecei então, a pensar que toda a vida, talvez, fosse sagrada e que merecia ser protegida.

Foi exatamente após ter concluído isso, que um tipo especial de vida passou a fazer parte da minha. 

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