Às vezes, aqui preso na Matriz, tenho
visões. Vislumbres de um mundo parecido, mas ao mesmo tempo diferente deste. Um
céu avermelhado, aonde brilha uma estrela amarela como esta, embora não tão
nítida por causa da fumaça que envolve todo o firmamento. Vejo também uma
gigantesca figura, estranhamente familiar. Diferentemente da maioria dos
animais que encontrei por aqui, ele anda em duas pernas. Aparenta ser
incrivelmente forte e musculosa. Em ambas as extremidades de seus gigantescos
membros superiores, despontam duas ameaçadoras lâminas. Ele esta caminhando
resolutamente em minha direção. Visão? Sonho? Sinceramente, não sei.
O certo é que estou voando entre
o bico desta ave já há algum tempo, pois a grande estrela já surgiu e se
retirou 140 vezes. Já atravessamos florestas, picos gelados, áreas desertas e
grande extensão líquida. Já paramos e retomamos a viajem inúmeras vezes. Quando
finalmente consigo visualizar a terra firme, reconheço que já sobrevoei essa
região muitas vezes. Sei que é uma área incrivelmente povoada por diversos
tipos de animais, com muita diversidade vegetal e logo mais ao norte, uma
imensa área deserta.
Qual seria interesse de uma ave
na matriz, não sei. Mal tive tempo de conjecturar sobre o assunto e outra
veloz, furiosa e implacável ave nos atacou, cravando suas poderosas e afiadas garras
no pescoço de sua vítima.
No impulso de se defender, a ave
soltou a matriz que caiu embrenhando-se na mata. Ficamos alocados no solo, em
meio às folhagens, perto de uma gigantesca árvore. Ainda podia ouvir o duelo
das aves que acontecia acima. O rebuliço pôs em movimento uma gama de animais
que estavam abrigados nas copas, porém, o som do combate cessou e logo imperou
o silencio.
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A noite na floresta é muito mais
agitada do que eu estava acostumado, com inúmeros animais de hábitos noturnos
que vieram me visitar. Muitos seres rastejantes, outros voadores de oito patas,
um bem pequeno e espinhoso que passou algum tempo a me cutucar.
Esforcei-me para sair da matriz,
a fim de fazer um reconhecimento do que provavelmente seria o meu novo lar por
muito tempo. Mesmo a noite, a região borbulha vida.
Vida...
Que tipo de mágica é essa? Como um
punhado de elementos inanimados se combinaram em suas exatas proporções e criam
todas essas maravilhas? O que definiu tais valores? Uma inteligência? Um feliz
acidente? Comecei então, a pensar que toda a vida, talvez, fosse sagrada e que
merecia ser protegida.

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