Vida...
Que palavra maravilhosa! Tão
frágil, tão persistente, tão inquieta. Sempre mudando de forma através dos
tempos. E como mudou desde a última vez em que saí da matriz! Seres gigantescos
que se tornaram menores, fracos que se tornaram fortes, belos que se tornaram
não tão belos. Contudo, a mudança não se limitava na aparência física. O comportamento
dos seres havia também se modificado.
A experiência e observação haviam
me ensinado que criaturas com pares de olhos na frente da cabeça, eram os
predadores. Os que possuíam olhos nas extremidades da cabeça eram as presas.
Mas aqui, neste mundo restaurado, não era assim. Todos os seres viviam
harmoniosamente, buscando entre os vegetais a energia necessária para sua
sobrevivência.
Ligada à matriz estava à árvore
da vida, cujos frutos tinham a capacidade de manter vivas as criaturas por
incontáveis luzes, até mesmo aquelas que normalmente não costumam viver tanto
tempo.
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Fazia muito tempo que eu não via
uma criatura como ela. Estava muito deferente, mas reconheci assim que a vi se
aproximando. Estava menor, menos forte, o corpo sem pelos, exceto o rosto ao
redor da boca e acima, na cabeça.
Aproximou-se andando ereto sobre
as duas patas, retirou uma das frutas da árvore da vida e comeu. Assim que
engoliu do fruto, senti que eu estava conectado àquela criatura assim como há
muito tempo, havia estado com seu antepassado.
- Sou o homem – disse ele, em
pensamento.
- Sou a matriz, respondi.
- Fui orientado a vir aqui para
lhe dar um nome – disse ele enquanto dava mais uma mordida no fruto – Rael será
seu nome.
- Orientado por quem?
- Por meu Criador e teu Criador
- Quem é o Criador? Perguntei.
- Ele é o que é antes do mundo
ser criado e continuará sendo depois de o mundo passar.
- Onde ele está?
- Em toda parte. Estamos
mergulhados nele agora.
- Como vou saber se o que você diz é verdade?
- Você já sabe, Rael... Você já
sabe...
Ao dizer isso, deu mais uma
mordida no fruto e foi caminhando, se afastando da árvore.
- Aonde vai? Perguntei, pois
ainda tinha muitas perguntas para fazer.
-Ainda tenho muitas coisas para
colocar nomes. É um trabalho exaustivo.
- E porque me chama Rael?
O homem não respondeu e nossa
conexão terminou.
Durante muito tempo fiquei
refletindo sobre essa nova revelação. Sobre este criador que existe desde a
eternidade e que está em toda parte. Como o homem consegue entrar em contato com
ele? Como um ser tão limitado no espaço e no tempo consegue compreender e se
comunicar com um ser tão poderoso e ilimitado? De que forma isso acontecia?
Achei tudo aquilo muito surpreendente.
O eterno ciclo de caos e ordem
tinha, afinal, um maestro. Ele cria o caos e dele faz nascer a ordem. Ele criou
a vida e todas as condições que a sustenta. Criou as condições para que a vida
se modifique, sobreviva, cumpra o seu papel neste mundo e dê espaço para outras
formas. Ele criou as estrelas, o grande luzeiro do dia e o grande luzeiro da
noite. E ele me criou.
Eu... Eu
Palavra interessante.
Eu sou Rael.

