terça-feira, 28 de junho de 2016

Capítulo 5: Disputa



Vida...

Maravilhosa e tão frágil, que não é preciso muita coisa para extingui-la. Imaginei quantas delas foram perdidas no momento em que aqui cheguei. Me senti mal.

A luz mal acabara de surgir quando uma curiosa criatura se aproximou, saindo de trás dos galhos secos. O corpo arredondado coberto de pelos marrons, cabeça grande, com focinho proeminente. Andava sobre as quatro patas e assim que surgiu, foi logo se dirigindo para os lados da grama verde. Sua boca ao abrir, revelava duas fileiras de dentes curtos e achatados, com os quais arrancava a grama com vigor. Fiquei observando com curiosidade o que para mim era uma interessante novidade e só fui perceber que não estávamos sozinhos, quando outro animal subitamente pulou por cima de onde eu estava, cravando as poderosas presas no pescoço de sua vítima, sem chances de reação.


Os gritos estridentes do animal em agonia me causaram uma impressão de desconforto extremo.  Havia algo na ideia do mais forte dominando o mais fraco, que não me agradava.

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A vida é maravilhosa e frágil. Esvai-se como um fluido cujo recipiente foi destruído. Quando o predador finalmente foi embora, deixou atrás de si uma carcaça banhada de líquido vermelho.



O ruído das folhagens denuncia a chegada de novos visitantes. A visão é ofuscada pela luz, mas consigo ver a aproximação de uma criatura que não se assemelha a nada com o que eu tinha visto até então. Não era tanto o fato de ele andar ereto sobre as duas patas, mas sim a sensação confusa que me fez, ao mesmo tempo, admirar a sua imagem distinta e me sentir reencontrando um velho amigo.

Não era muito alto se comparado aos gigantescos animais que eu já havia visto em outras regiões. Seus membros superiores eram ligeiramente mais longos que os inferiores.  Movia-se não como as demais criaturas, guiadas exclusivamente pelos extintos e sentidos, mas avaliava o ambiente de forma consciente.

Também não possuía garras ou chifres. Contudo, carregada com vigor um objeto pontiagudo que, muito provavelmente, era usado para defesa.



Atravessou a barreira de arbustos e logo revelou que não estava sozinho: outros quatro, da mesma espécie, o seguia. Com muito cuidado, se aproximaram da carcaça que o predador havia deixado. O maior dentre eles, o que portava o objeto pontiagudo e, aparentemente, o líder do grupo, agachou-se sobre o cadáver e começou a raspar a carne do animal morto usando a ferramenta.

Enquanto eu observava a cena não percebi a presença de um quinto membro do grupo que chegara atrasado. Ele olhou com curiosidade para a matriz que repousava no chão. Segurou-a com firmeza e suspendeu até a altura dos olhos. Pude vislumbrar o seu rosto animalesco e ficamos estudando um ao outro por algum tempo.

Um grunhido forte. E quando olhei, o líder do grupo estava fitando, com raiva, àquele que havia pegado a matriz. Todos os que estavam agachados sobre o cadáver do animal se levantaram rapidamente, assustados com o som ameaçador emitido pelo seu líder. Com olhos arregalados, cambiavam os olhares do líder para nós e de nós para o líder.

Uma disputa parecia que ia se iniciar.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Capítulo 4: Vida



Às vezes, aqui preso na Matriz, tenho visões. Vislumbres de um mundo parecido, mas ao mesmo tempo diferente deste. Um céu avermelhado, aonde brilha uma estrela amarela como esta, embora não tão nítida por causa da fumaça que envolve todo o firmamento. Vejo também uma gigantesca figura, estranhamente familiar. Diferentemente da maioria dos animais que encontrei por aqui, ele anda em duas pernas. Aparenta ser incrivelmente forte e musculosa. Em ambas as extremidades de seus gigantescos membros superiores, despontam duas ameaçadoras lâminas. Ele esta caminhando resolutamente em minha direção. Visão? Sonho? Sinceramente, não sei.

O certo é que estou voando entre o bico desta ave já há algum tempo, pois a grande estrela já surgiu e se retirou 140 vezes. Já atravessamos florestas, picos gelados, áreas desertas e grande extensão líquida. Já paramos e retomamos a viajem inúmeras vezes. Quando finalmente consigo visualizar a terra firme, reconheço que já sobrevoei essa região muitas vezes. Sei que é uma área incrivelmente povoada por diversos tipos de animais, com muita diversidade vegetal e logo mais ao norte, uma imensa área deserta.

Qual seria interesse de uma ave na matriz, não sei. Mal tive tempo de conjecturar sobre o assunto e outra veloz, furiosa e implacável ave nos atacou, cravando suas poderosas e afiadas garras no pescoço de sua vítima.

No impulso de se defender, a ave soltou a matriz que caiu embrenhando-se na mata. Ficamos alocados no solo, em meio às folhagens, perto de uma gigantesca árvore. Ainda podia ouvir o duelo das aves que acontecia acima. O rebuliço pôs em movimento uma gama de animais que estavam abrigados nas copas, porém, o som do combate cessou e logo imperou o silencio.

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A noite na floresta é muito mais agitada do que eu estava acostumado, com inúmeros animais de hábitos noturnos que vieram me visitar. Muitos seres rastejantes, outros voadores de oito patas, um bem pequeno e espinhoso que passou algum tempo a me cutucar.

Esforcei-me para sair da matriz, a fim de fazer um reconhecimento do que provavelmente seria o meu novo lar por muito tempo. Mesmo a noite, a região borbulha vida.

Vida...

Que tipo de mágica é essa? Como um punhado de elementos inanimados se combinaram em suas exatas proporções e criam todas essas maravilhas? O que definiu tais valores? Uma inteligência? Um feliz acidente? Comecei então, a pensar que toda a vida, talvez, fosse sagrada e que merecia ser protegida.

Foi exatamente após ter concluído isso, que um tipo especial de vida passou a fazer parte da minha. 

domingo, 19 de junho de 2016

Capítulo 3: A Matriz


Quanto mais observo este lugar, mais me afeiçoo a ele. Com o tempo, ganho a capacidade de permanecer por longos períodos fora de minha “prisão”, o que me permite conhecer muitos lugares diferentes: imensas áreas verdes repletas dos mais variados tipos de seres vivos, regiões áridas e desabitadas, gigantescas e belíssimas montanhas de gelo e um extensa, quase infinita região líquida.

Contudo, não é um lugar estático. Movimentos e transformações são constantes. De tempos em tempos, há mudança nas paisagens. Terremotos e maremotos com poderes de criar novas regiões secas ou de fazê-las sumir, atividades vulcânicas capazes de dar origem a novas ilhas, movimentações de extensas áreas de terra que, ao se chocarem com outras, dão origens a montanhas gigantescas, vida vegetal ampla e variada que nasce, morre e renasce, espécies de animais que desaparecem e outras que proliferam.

Avanço em direção ao horizonte e me maravilho com o espetáculo da grande estrela, que ao se esconder dá a impressão de pintar o céu com cores avermelhadas e laranjadas, dando lugar à imensa rocha arredondada e brilhante. Não me canso de admirar as incontáveis estrelas, emitindo a sua luz e  piscando alegremente no céu enegrecido. 

Por mim, ficaria para sempre perambulando e observando as incríveis reviravoltas deste mundo maravilhoso. Mas sempre que o cansaço começa a apontar, sou arrastado de volta para a minha clausura azul brilhante, num abrir e fechar de olhos.

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Eu... Eu... Afinal, quem sou eu? Um fantasma? Algo intermediário entre um espírito e um ser vivente? Parte do tempo fico preso no interior desta pedra azul. Que objeto seria esse? Sei que é algo extremamente resistente, pois aguentou um impacto esmagador assim que cheguei e nem sequer sofreu uma rachadura. Notei também, que vez por outra, sai de seu centro uma luz azul intensa. Aqui dentro existe muita energia. Posso sentir de alguma forma.


Deste que chegamos, eu e a pedra azul, estamos aqui. Soterrados debaixo de terra e pedras. De alguma forma a energia que sai da pedra azul é capaz de fornecer vida às plantas e animais rasteiros das imediações. Parece que esta energia tem alguma capacidade nutritiva. É uma matriz. Uma fonte de vida.


Parece que eu também sou alimentado por esta energia. Por isso, às vezes, consigo sair e flutuar por ai. Quanto me torno fraco, sou trazido de volta instantaneamente para a matriz. Foi tudo o que consegui deduzir.



Meus pensamentos são interrompidos.


Um estrondo e um tremor. A terra racha de fora a fora. A claridade denuncia que estou a céu aberto. Uma ave esplendidamente negra pousa e rapidamente prende a matriz em seu bico, levantando voo e me levando junto.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Capítulo 2: Um novo lar

Posso sentir a onda de calor que se alastra, seguida de uma gigantesca onda de energia que evidencia um impacto de nível monstruoso. Não sei contra o que bati, mas não deve ter sobrado nada.

Sinto a energia sonora se espalhando violentamente e o invólucro mais externo que me revestia se espatifando. Sou arremessado para longe e tudo o que consigo ver através da pedra azulada que me envolve, única coisa que resistiu ao impacto, é uma densa poeira escura. Ondas de energia me invadem. O involucro que me retém, emitindo uma luz azul intensa, é como se estivesse se alimentando de toda aquela força causada pelo impacto.


Pela primeira vez consigo intuir a passagem do tempo. É estranha a sensação de ficar estático após tanto tempo perambulando sabe-se lá por onde. Ainda não dá para saber onde fui parar, pois só consigo ver uma densa cortina de poeira preta. Subitamente, sou surpreendido por um sacolejo violento, explosões e atividade vulcânica. Novamente o caos se instala ao meu redor. Algo está me arrastando. Conheço isso... é água e também fogo....

Pedaços de rocha incandescente caem próximos a mim. Aos poucos, vou sendo coberto por toneladas de detritos.  E tudo fica escuro novamente.

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Eu.... Eu... palavra interessante.

Sensações de ter sido alguém um dia.  De ter tido um vida diferente. De um dia ter sido livre. E então, nasce um impulso. Uma avassaladora vontade de ser livre. Luto para me libertar de uma forma que não compreendo. Apenas luto. Faço um esforço monumental.

Uma forte claridade irrompe. Sinto que estou me movendo, escapando do invólucro azulado que me prende. Mas também sinto algo me puxando. Seja lá o que for, não quer que eu saia. Esforço-me ainda mais.  A angustia toma conta de mim. Avanço lentamente, lutando, me libertando.  E venço. O que quer que estivesse me puxando, desistiu. Estou livre.

Estranhamente familiar a paisagem que se põe à minha frente. Passeando, vislumbro rios, riachos, córregos vegetação rasteira. Animais! Pequenos animais perambulando alegremente em meio a grama! Continuo em frente. Ultrapasso montanhas e planícies. Risco o céu azul com velocidade. Atravesso sem dificuldade um rochedo e saio do outro lado. Estou feliz! Estou livre! Passo no meio de um grupo de árvores e posso ver aves multicoloridas sobrevoando acima delas.
Um sentimento muito bom se apodera de mim. Que lugar incrível!



Súbito, vou perdendo velocidade. Voar se torna cada vez mais difícil. Por mais que eu me esforce para seguir em frente, acabo parado no ar e, então, sou puxado para trás com violência.

Num piscar de olhos estou de volta à minha prisão azul.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Capítulo 1: Big Bang.


O caos. É tudo do que me lembro do princípio.  Uma imensa massa luminosa, agitando-se freneticamente. Pensamentos confusos. É difícil focar em algo, até porque duvido que exista algo para focar. O escuro. Quando “desperto”, o ambiente que se apresenta é totalmente diferente. Vejo laços, inúmeros pares de cordões movimentando-se como pêndulos. Confusão. Escuro novamente.

Quando volto, o ambiente está menos confuso. Sinto uma necessidade enorme de aprender. Uma fome incontrolável de conhecimento. Movido unicamente pelo desejo, me aproximo de um dos milhares de pares de laços espalhados ao meu redor. Observo-os com atenção. Vislumbro o seu brilho levemente acinzentado e o seu vibrar.



Percebo que, conforme cada corda do par vibra, objetos surgem repentinamente e são lançados com grande velocidade. Curioso. O que haveria de ser isso? Percebo que milhares de milhares de objetos são lançados no espaço.

Cada laço vibra de uma forma diferente e produz objetos levemente distintos dos outros. Com o tempo, todo o ambiente está coberto por esses elementos, que começam a colidir uns com os outros, dando origem a novos objetos. Logo, todo o ambiente está saturado desses elementos. Uma confusão se instaura, com milhares de objetos se batendo violentamente.

Novamente o caos. Súbito clarão. E novamente o escuro.



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“Eu”... “Eu”... Que palavra interessante. Pela primeira vez me reconheço como alguém e noto que o que está a minha volta não faz parte de mim, como pensava. Ao meu redor, uma nuvem azul brilhante. Já não consigo me mover como antes e isso não me incomoda. Sinto-me extremamente confortável como estou.

 Percebo que o ambiente mudou completamente. Já não consigo ver aqueles curiosos laços, movimentando-se e vibrando. Ao invés disso, através da nuvem que me envolve, observo um imenso espaço repleto de objetos e luz. Embora imóvel, a nuvem me leva adiante, assim como tudo o que está ao meu redor.

Pouco a pouco, percebo que a nuvem ao meu redor se modifica, saindo de uma aparência gasosa para solida. Tudo se torna compacto. Estou preso em um ponto de luz azul, envolto em algum tipo de objeto sólido. Um brilho intensamente azul me atravessa e atraído por ela, vários objetos me circundam.  Aos poucos, estou coberto de objetos dos mais variados tamanhos. A luz cessa. Escuro novamente.