Talvez, o que somos seja
resultado daquilo que já éramos e daquilo que vimos a ser através da
experiência.
Em minhas mais remotas
lembranças, se é posso assim chamar, vislumbro imagens de outro lugar, de outra
época. De mim se aproxima uma criatura muito semelhante ao homem, embora notoriamente
maior. Seu rosto estava oculto em meio a uma cabeleira crespa e barba
desgrenhada. Em cada um de seus braços exageradamente musculosos, saia uma
lâmina que se projetava diretamente dos pulsos. Seu peito, abdômen e pernas
também eram repletos de enormes músculos. Parou de frente para mim e quando
fitei seus olhos, foi como se eu me reencontrasse com um velho companheiro que
há muito não via.
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“O Jardim”.
Foi o nome que o homem deu àquele
lugar maravilhoso, onde a harmonia imperava e a morte não possuía qualquer
efeito. Onde só habitavam as mais pacíficas criaturas, lideradas pelo homem e a
mulher, a quem todos respeitavam. Às vezes me perguntava se aquele estado
pacífico era um aperfeiçoamento de um estado original ou era o estado original
de uma natureza que por algum motivo havia sido deturpado.
Homem e mulher trabalhavam muito,
o tempo todo juntos. Era interessante a forma harmoniosa com que conviviam. O
homem parecia ser o líder, mas ele sempre ouvia a mulher e a respeitava muito.

Todas as decisões eram tomadas em conjunto e quase não havia discórdia. Estas,
quando surgiam, eram sanadas pela consulta ao Criador. Nestes momentos, homem e
mulher se retiravam para um lugar ermo, construído especialmente para o
propósito. Lá, tinham uma conversa muda
com o Celestial, nome que deram ao seu
Criador. Chegavam, então, a uma conclusão para o empasse baseada na resposta
dada pelo Criador. Era uma forma bem peculiar de fazer as coisas, pois fora do
jardim as decisões eram sempre tomadas pelos machos. Às fêmeas e às crias, só restava
a obediência.
Aos poucos a ideia de um Criador
pessoal foi fazendo mais sentido para mim. Afinal, não faria sentido algum uma
vida dedicada à manutenção da existência, se tudo terminasse na morte. Mas a
existência e ação do Criador mudava tudo, pois representa a continuidade. Era
algo que fazia a vida valer a pena.