Nenhuma criatura que habitava fora
do Jardim conseguia entrar. Exceto uma. Aparentemente, ela tinha permissão para
entrar e sair quantas vezes quisesse. Homem e Mulher a chamavam “Serpente”.
Todos os dias Serpente entrava
no Jardim e passava muito tempo conversando com o Homem. Depois, voltava para o
seu lugar, fora do Jardim, onde reinava o caos, e para onde eu jamais gostaria
de voltar.

Nunca me atrevi a perguntar o
teor das conversar entre o homem e a serpente. Estava mais interessado em
aprender sobre o Criador. Todos os dias Homem e Mulher sentavam a beira da
árvore da vida, comiam de seu fruto revigorante e, ambos conectados a mim,
passávamos tardes e noites inteiras conversando sobre as coisas do Celestial.
E, assim, aprendi muito sobre Ele e sua criação.
Aprendi sobre a afinadíssima
harmonia que existe acima do céu e embaixo da terra. Que todas as criaturas tem
uma função a desempenhar e, que essa função, faz com que tudo funcione no mundo
em que vivemos. Entendi o papel do homem e da mulher como administradores da
criação. Acompanhei com interesse o nascimento e o desenvolvimento de suas
crias, entendi a grandiosa missão que o Criador havia dado àquela espécie
renovada: levar a harmonia do Jardim para os quatro cantos daquele mundo
decaído.
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Vida...
Palavra maravilhosa.
Ela deve ser protegida e perpetuada.
Meu papel no mundo é preservá-la dentro do Jardim, fazer com que sua influência cresça e elimine
o mal que existe no mundo.
Enquanto tiverem a árvore da vida
e a energia da matriz que a prolonga, não existe uma forma de esta missão não
dar certo.
No dia-a-dia naquele lugar
magnífico, apenas uma coisa me tirava a paz: Serpente. Não poderia confiar em
nada que vivesse fora do Jardim e não gostava das longas conversas que
aconteciam entre ela e o Homem, muito embora desconhecesse o teor de tais diálogos.
Não demorou e Serpente mudou o
foco de suas conversas, pois havia desistido do Homem para voltar-se à mulher.